domingo, 21 de junho de 2015

“Jesus, um nordestino”

Vivência na Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba.

por: Joel Zeferino.
Muritiba, 21 de junho de 2015.

1. “Nordestino, o que é isso?” - Reflexão

2. “Jesus, um nordestino” – Poesia – (Diógenes da Cunha Lima)

Eu penso que Jesus devia nascer em Belém, na Paraíba, perto de Guarabira, e vizinho a Pirpirituba. E se não bastasse a vizinhança a indicar rima e caminho, Nova Cruz.
Era filho caçula de Dona Maria, uma mulher dona da beleza e que germinava bondade nas pessoas. Era um menino moreno muito esperto, embalado em rede de algodão cru. Tinha sandália com currulepo entre os dedos e cajus, em dezembro, a lhe matar a sede.
O seu pastor fora um vaqueiro nordestino de gibão e perneira e guarda-peito, pra livrar as suas carnes da Jurema.
E vieram adorar o Deus-menino os Santos Reis, entrelaçados de bom jeito: um negro, um índio e um branco português.
Seria fácil encontrar espinhos para a Fronte Divina coroar, e um caminhão que ia por São José do Egito, pra levar Jesus, o retirante, até São Paulo, um santo feito para as grandes secas.
Meu Deus, meu Deus, por que nos abandonaste, exclamaria, enquanto repartia com o povo nu as suas vestes, multiplicadas como pães ou peixes.
Criança, era carpinteiro como seu pai, fazendo caixões azuis para os anjos do lugar. Brincaria de castanha, um castelo, como convém à sua alta Nobreza.
Academia, pulava num pé só. E proezas faria num cavalo de pau. O seu jumento era mais magro, certamente. E nem serviria pra carne de jabá.
Era um menino desnutrido como os outros da região, a fazer o bem. Mudar aqui as coisas só vão na base do milagre.  Ou da força parida da vontade.
Eu penso que Jesus devia nascer em Belém. Em Belém da Paraíba.


Jesus Sertanejo

Luíz Gonzaga

1. Jesus, meu Jesus sertanejo. Presença maior, minha crença. Nestas terras sem ninguém
    Silêncio na serra, nos campos. Ai desencanto que a gente tem
    E o vento que sopra, ressoa. Ai sequidão que traz desolação

Ô ô Jesus razão! Tão sertanejo, que entende até de precisão

2. De sol vou sofrer ou morrer. E as pedras resplandem a dureza, a pobreza desse chão.
    João, um menino, um destino: ai nordestino, de arribação
    Cenário de dor e de calvário. Ai muda a face desta provação

3. Do céu há de vir solução. Na terra, a semente agoniza, preconiza solidão
    E a tarde que arde, acompanha. Ai tanta sanha de maldição
    Aqui vou ficar, vou rezar. Ai vou amar a minha geração

3. “Homem de dores...” – Leitura da profecia bíblica: Isaías 53:1-7

“Quem vai acreditar na notícia que trazemos? A quem relatar o poder do Senhor? Crescia diante dele como um broto, qual raiz que nasce da terra seca: Não fazia vista, nem tinha beleza a atrair o olhar, não tinha aparência que agradasse. Era o mais desprezado e abandonado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento. Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos de pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós. Como ovelhas estávamos todos perdidos, cada qual ia em frente por seu caminho. Foi então que o Senhor fez cair sobre ele o peso dos pecados de todos nós.” Oprimido, ele se rebaixou, nem abriu a boca! Como cordeiro levado ao matadouro ou ovelha diante do tosquiador, ele ficou calado, sem abrir a boca”

Triste Partida
Meu Deus, meu Deus...
Setembro passou, outubro e Novembro.  Já tamo em Dezembro, meu Deus, que é de nós! (Meu Deus...)
Assim fala o pobre do seco Nordeste. Com medo da peste, da fome feroz (ai, ai, ai, ai)

A treze do mês ele fez experiência.  Perdeu sua crença nas pedras de sal (Meu Deus...)
Mas noutra esperança com gosto se agarra. Pensando na barra do alegre Natal (Ai, ai, ai, ai)

Rompeu-se o Natal porém barra não veio. O sol bem vermeio nasceu muito além (Meu Deus...)
Na copa da mata buzina a cigarra. Ninguém vê a barra pois a barra não tem (ai, ai, ai, ai)

Sem chuva na terra descamba Janeiro. Depois fevereiro e o mesmo verão  (Meu Deus...)
Entonce o nortista pensando consigo, diz: "isso é castigo não chove mais não" (ai, ai, ai, ai)

Apela pra Março que é o mês preferido Do santo querido, Senhor São José (Meu Deus...)
Mas nada de chuva tá tudo sem jeito. Lhe foge do peito o resto da fé (ai, ai, ai, ai)

Agora pensando ele segue outra tria. Chamando a famia, começa a dizer. (Meu Deus...)
Eu vendo meu burro meu jegue e o cavalo nós vamos a São Paulo, viver ou morrer (ai, ai, ai, ai)

Nós vamos a São Paulo que a coisa tá feia. Por terras alheia nós vamos vagar (Meu Deus...)
Se o nosso destino não for tão mesquinho. Cá e pro mesmo cantinho nós torna a voltar (ai, ai, ai, ai)

E vende seu burro, jumento e o cavalo. Inté mesmo o galo venderam também (Meu Deus...)
Pois logo aparece, feliz fazendeiro. Por pouco dinheiro lhe compra o que tem (ai, ai, ai, ai)

Em um caminhão ele joga a famia. Chegou o triste dia já vai viajar (Meu Deus...)
A seca terrível que tudo devora. Lhe bota pra fora da terra natá (ai, ai, ai, ai)

O carro já corre no topo da serra; Oiando pra terra seu berço, seu lar (Meu Deus...)
Aquele nortista, partido de pena. De longe acena: adeus meu lugar (ai, ai, ai, ai)

No dia seguinte já tudo enfadado. E o carro embalado veloz a correr (Meu Deus...)
Tão triste, coitado, falando saudoso. Seu filho choroso exclama a dizer. (ai, ai, ai, ai)

De pena e saudade, papai sei que morro. Meu pobre cachorro, quem dá de comer? (Meu Deus...)
Já outro pergunta: mãezinha, e meu gato? Com fome, sem trato, mimi vai morrer (ai, ai, ai, ai)

E a linda pequena tremendo de medo. "Mamãe, meus brinquedo, meu pé de fulô?" (Meu Deus...)
Meu pé de roseira, coitado, ele seca e minha boneca também lá ficou (ai, ai, ai, ai)

E assim vão deixando com choro e gemido. Do berço querido, céu lindo azul. (Meu Deus...)
O pai, pesaroso nos filho pensando e o carro rodando na estrada do Sul (ai, ai, ai, ai)

Chegaram em São Paulo. Sem cobre quebrado. E o pobre acanhado, procura um patrão (Meu Deus...)
Só vê cara estranha, de estranha gente. Tudo é diferente do caro torrão (ai, ai, ai, ai)

Trabaia dois ano, três ano e mais ano. E sempre nos prano de um dia vortar (Meu Deus...)
Mas nunca ele pode, só vive devendo. E assim vai sofrendo, é sofrer sem parar (ai, ai, ai, ai)

Se arguma notícia das banda do norte. Tem ele por sorte o gosto de (Meu Deus...)
Lhe bate no peito, saudade lhe molho. E as água nos óio, começa a cair (ai, ai, ai, ai)

Do mundo afastado ali vive preso Sofrendo desprezo, devendo ao patrão (Meu Deus...)
O tempo rolando, vai dia e vem dia. E aquela famia não vorta mais não (ai, ai, ai, ai)

Distante da terra tão seca mas boa. Exposto à garoa à lama e o paú ((Meu Deus...)
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo. Viver como escravo no Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai!
4. Morte e Vida Severina – (Introdução) - João Cabral de Melo Neto
— O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas e iguais também porque o sangue, que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte Severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta,
A de querer arrancar alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.

Asa Branca

Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai! Por que tamanha judiação! (Bis)

Que braseiro, que fornalha! Nem um pé de prantação
Por falta d'água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão (Bis)
Inté mesmo a asa branca. Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha, guarda contigo meu coração (Bis)
Hoje longe, muitas léguas. Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo, pra mim voltar pro meu sertão (Bis)
Quando o verde dos teus olhos. Se espalhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu, que eu voltarei, viu, meu coração (Bis)
5. Poema do Milho – (Fragmentos) – Cora Coralina
Milho... Punhado plantado nos quintais. Talhões fechados pelas roças. Entremeado nas lavouras, baliza marcante nas divisas. Milho verde. Milho seco. Bem granado, cor de ouro. Alvo. Às vezes vareia, - espiga roxa, vermelha, salpintada.
Milho virado, maduro, onde o feijão enrama. Milho quebrado, debulhado na festa das colheitas anuais.
Bandeira de milho levada para os montes largada pelas roças: Bandeiras esquecidas na fartura. Respiga descuidada dos pássaros e dos bichos.
Milho empaiolado. Abastança tranqüila do rato, do caruncho. Do cupim. Palha de milho para o colchão. Jogada pelos pastos. Mascada pelo gado. Trançada em fundos de cadeiras.
Queimada nas coivaras. Leve mortalha de cigarros. Balaio de milho trocado com o vizinho no tempo da planta. "- Não se planta, nos sítios, semente da mesma terra".
Ventos rondando, redemoinhando. Ventos de outubro.
Tempo mudado. Revôo de saúva. Trovão surdo, tropeiro. Na vazante do brejo, no lameiro, o sapo-fole, o sapo-ferreiro, o sapo-cachorro. Acauã de madrugada marcando o tempo, chamando chuva.
Roça nova encoivarada, começo de brotação. Roça velha destocada. Palhada batida, riscada de arado. Barrufo de chuva. Cheiro de terra; cheiro de mato, Terra molhada, Terra saroia.
Noite chuvada, relampeada. Dia sombrio. Tempo mudado, dando sinais. Observatório: lua virada. Lua pendida... Circo amarelo, distanciado, marcando chuva. Calendário, Astronomia do lavrador.
Planta de milho na lua-nova. Sistema velho colonial. Planta de enxada. Seis grãos na cova, quatro na regra, dois de quebra. Terra arrastada com o pé, pisada, incalcada, mode os bichos.
Lanceado certo-cabo-da-enxada... Vai, vem... sobe, desce... terra molhada, terra saroia... Seis grãos na cova; quatro na regra, dois de quebra Sobe. Desce... Camisa de riscado, calça de mescla Vai, vem... golpeando a terra, o plantador.
Na sombra da moita, na volta do toco - o ancorote d'água:
Cavador de milho, que está fazendo? A que milênios vem você plantando. Capanga de grãos dourados a tiracolo. Crente da Terra, Sacerdote da terra. Pai da terra. Filho da terra. Ascendente da terra. Descendente da terra. Ele; mesmo; terra.
Planta com fé religiosa. Planta sozinho, silencioso. Cava e planta. Gestos pretéritos, imemoriais... Oferta remota; patriarcal. Liturgia milenária. Ritual de paz. Em qualquer parte da Terra um homem estará sempre plantando, recriando a Vida.
Recomeçando o Mundo. Milho plantado; dormindo no chão, aconchegados seis grãos na cova. Quatro na regra, dois de quebra. Vida inerte que a terra vai multiplicar
Evém a perseguìção: o bichinho anônimo que espia, pressente. A formiga-cortadeira - quenquém. A ratinha do chão, exploradeira. A rosca vigilante na rodilha, o passo-preto vagabundo, galhofeiro, vaiando, sorrindo... aos gritos arrancando, mal aponta. O cupim clandestino roendo, minando, só de ruindade.
E o milho realiza o milagre genético de nascer: Germina. Vence os inimigos, aponta aos milhares. - Seis grãos na cova. - Quatro na regra, dois de quebra, Um canudinho enrolado. Amarelo-pálido, frágil, dourado, se levanta. Cria sustância. Passa a verde. Liberta-se. Enraíza, Abre folhas espaldeiradas. Encorpa. Encana. Disciplina, com os poderes de Deus.
Jesus e São João desceram de noite na roça, botaram a bênção no milho, e veio com eles uma chuva maneira, criadeira, fininha, uma chuva velhinha, de cabelos brancos, abençoando a infância do milho.
O mato vem vindo junto, Sementeira.
As pragas todas, conluiadas. Carrapicho. Amargoso. Picão. Marianinha. Caruru-de-espinho. Pé-de-galinha. Colchão. Alcança, não alcança. Competição. Pac... Pac... Pac... a enxada canta. Bota o mato abaixo. arrasta uma terrinha para o pé da planta. "...- Carpa bem feita vale por duas..." Quando pode. Quando não... sarobeia. Chega terra O milho avoa.
Cresce na vista dos olhos. Aumenta de dia. Pula de noite. Verde Entonado, disciplinado, sadio.
Agora... A lagarta da folha, lagarta rendeira... Quem é que vê? Faz a renda da folha no quieto da noite. Dorme de dia no olho da planta, Gorda; Barriguda. Cheia. Expurgo: nada... força da lua.., Chovendo acaba - a Deus querê.
"O mio tá bonito..." "-Vai sê bão o tempo pras lavoras todas." "-O mio tá marcando..." Condieionando o futuro: "- O roçado de seu Féli tá qui fais gosto... Um refrigério" "- O mio lá tá verde qui chega a s'tar azur..." - Conversam vizinhos e compadres.
Milho crescendo, garfando, esporando nas defesas...
Milho embandeirado. Embalado pelo vento.
"Do chão ao pendão, 60 dias vão".
Passou aguaceiro, pé-de-vento. "- O milho acamou..." "- Perdido?"... Nada... Ele arriba com os poderes de Deus..." E arribou mesmo; garboso, empertigado, vertical
No cenário vegetal um engraçado boneco de frangalhos sobreleva, vigilante. Alegria verde dos periquitos gritadores... Bandos em seqüência... Evolução... Pouso... retrocesso.
Manobras em conjunto. Desfeita formação. Roedores grazinando, se fartando, foliando, vaiando os ingênuos espantalhos.
"Jesus e São João andaram de noite passeando na lavoura e botaram a bênção no milho". Fala assim gente de roça e fala certo. Pois não está lá na taipa do rancho o quadro deles, passeando dentro dos trigais? Analogias... Coerências.
Milho embandeirado bonecando em gestação. - Senhor!... Como a roça cheira bem! Flor de milho, travessa e festiva. Flor feminina, esvoaçante, faceira. Flor masculina - lúbrica, desgraciosa.
As bandeiras altaneiras vão se abrindo em formação. Pendões ao vento. Extravasão da libido vegetal. procissão fálica, pagã. Um sentido genésico domina o milharal. Flor masculina erótica, libidinosa, polinizando, fecundando a florada adolescente das bonecas:
Tons maduros de amarelo. Tudo se volta para a terra-mãe. O tronco seco é um suporte, agora, onde o feijão verde trança, enrama, enflora.
Montes de milho novo, esquecidos, marcando claros no verde que domina a roça. Bandeiras perdidas na fartura das colheitas. Bandeiras largadas, restolhadas. E os bandos de passo-pretos galhofeiros gritam e cantam na respiga das palhadas.
"Não andeis a respigar" - diz o preceito bíblico. O grão que cai é o direito da terra. A espiga perdida - pertence às aves que têm seus ninhos e filhotes a cuidar. Basta para ti, lavrador, o monte alto e a tulha cheia. Deixa a respiga para os que não plantam nem colhem - O pobrezinho que passa. - Os bichos da terra e os pássaros do céu.

Boiadeiro

Luiz Gonzaga
Vai boiadeiro que a noite já vem. Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem
De manhazinha quando eu sigo pela estrada. Minha boiada pra invernada eu vou levar
São dez cabeça é muito pouco é quase nada mas não tem outras mais bonitas no luga
Vai boiadeiro que o dia já vem. Leva o teu gado e vai pensando no teu bem
De tardezinha quando eu venho pela estrada, A fiarada ta todinha a me esperar
São dez fiinho é muito pouco é quase nada mas não tem outros mais bonitos no lugar
Vai boiadeiro que a tarde já vem. Leva o teu gado e vai pensando no teu bem
E quando eu chego na cancela da morada. Minha Rosinha vem correndo me abraçar
É pequenina é miudinha é quase nada mas não tem outra mais bonita no lugar
Vai boiadeiro que a noite já vem. Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem

5. “Alegria: a vida vai surgindo de novo” – (Joel Zeferino) -  Leitura meditativa
“E vós, filhos de Sião, regozijai-vos e alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva temporã; fará descer a chuva no primeiro mês, a temporã e a serôdia. E as eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de mosto e de azeite” (Joel 2:23-24)

     A gente se esquece de tanta coisa... É quase inevitável: são tantas experiências acumuladas, que não damos conta de trazer todas elas na mente. E isso falando apenas das experiências individuais – quando pensamos nas coletivas, ai é que tudo se complica mais. É tanta história que não damos conta; ainda mais agora por conta das novas tecnologias, somos expostos “em tempo real” a história do mundo todo e de todo mundo em dois cliques...
     Ainda assim, é preciso recordar. Se nos esquecemos o porquê das coisas, perdemos não apenas um conjunto de informações, mas um pouco de quem somos. E quem somos afinal? Essa é uma daquelas perguntas que tem todas as respostas possíveis, e ao mesmo tempo nenhuma satisfatória. Mas ai é que entra a memória. Ai é que entram as histórias que nossos pais e avós contavam;  de nosso chão, de onde brota não apenas espigas de milho e amendoim – brota a nossa vida.
     Colocar de novo os pés na terra, e lembrar que a comida que temos na nossa dispensa não nasceu ali; que o leite não vem do supermercado; que a origem de tudo é lá no campo, onde se planta a semente, e se espera a colheita. É dessa simplicidade original que tudo mais aparece. Por isso, é preciso recordar.
     Recordar que no final das contas, somos todos dependentes da natureza; que se a chuva falta, ou cai em excesso; se a praga toma conta do campo; se falta o trigo o mosto e o azeite, ou melhor, o milho, o jenipapo e o dendê, nossa mesa fica vazia, de vida e de alegria. Mas se a chuva vem no tempo certo, ah! então logo é tempo de colher; depois é ir pra cozinha, acender o fogo; cozinhar o milho, fazer compotas e bebidas de jenipapo, descascar a laranja, colocar o amendoim na panela; chamar os amigos, repartir a mesa, dançar e festejar. No coração, o sentimento de gratidão profunda, pelo Senhor da natureza ter mandado tudo o que precisamos para a nossa vida.
     É isso. Precisamos recordar, orar, agradecer e é claro, festejar!

Olha Pro Céu

Luiz Gonzaga


Olha pro céu, meu amor. Vê como ele está lindo
Olha praquele balão multicor. Como no céu vai sumindo (Bis)

Foi numa noite igual a esta, que tu me deste o coração
O céu estava assim em festa. Pois era noite de São João
Havia balões no ar Xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar Que incendiou meu coração

 

A Vida do Viajante

Luiz Gonzaga

Minha vida é andar por esse país pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações, das terras por onde passei.
Andando pelos sertões. E dos amigos que lá deixei.

Chuva e sol. Poeira e carvão. Longe de casa sigo o roteiro mais uma estação
E a saudade no coração

Minha vida...

Mar e terra. Inverno e verão. Mostra o sorriso. Mostra a alegria. Mas eu mesmo não
E a alegria no coração



sábado, 31 de janeiro de 2015

Se a queda é livre, faça com ela o que quiser!


Para quem está acompanhando a minha série “Não tenho uma biografia, mas sim uma trilha musical da minha vida” (kkk) sabe que esse é o segundo post.

Claro que tem haver com o fato de que daqui a pouco estarei lá curtindo o som do Cascadura Rock (hoje, 31 de janeiro de 2015 vai rolar show do Cascadura no Largo Tereza Batista, no Pelourinho - Salvador). Mas também por que na semana passada, comentei com a amiga Ticiana Barral, de forma imprecisa, que “Queda Livre” seria “a música mais triste do Cascadura”.

Me explico melhor aqui: não é que ela seja necessariamente “triste”. É que por seu tom alegre, a canção pode passar batida em todas as suas possibilidades e nuances.

 Para mim (como já disse, não se trata de exegese, nem crítica musical, mas de impressões bem pessoais), foi realmente surpresa quando ouvindo de novo, e de novo, me deparei com a possibilidade de ler na canção o “ser para a morte” de Heidegger – isto é, que o ser humano é um ser em face da morte – que se interroga, se culpa, e se angustia por seu ser diante da iminência do não-ser.

Mas que! Não só angústia e preocupação fazem parte desse itinerário: se a vida é uma “queda” desde o nascimento até a morte, por que não aproveitar até lá? Carpe diem! Ou melhor: aproveite a viagem – colha as paisagens que encontrar no caminho; aprenda; ensine; chore; sorria. Faça valer à pena.

Mas só pra cortar o barato, ou melhor, pra lembrar que nada é “barato” é bom reafirmar que para conquistar o direito de uma vida com significado, é preciso reconhecer que, em algumas instâncias, estamos completamente sós: “Eu posso gritar... ninguém vai me ouvir...” – afinal, quem além de nós mesmos - que viveu cada dor e alegria, cada sentimento de modo único e pessoal - conhece o sentido de nossos gritos mais profundos?

Nesse sentido, é preciso reunir coragem de ficar “nu e só ao meio dia” como diz a outra canção - encarando todos nossos abismos externos e internos. Depois disso, mais uma vez, boa viagem – aproveite a “Queda livre”!

Queda Livre
Cascadura
(http://letras.mus.br/dr-cascadura/451248/)

Lá vamos nós outra vez em queda livre

Não há como parar nem onde segurar
Só nos resta ir
Mas é boa a sensação de estar caindo
É tentar relaxar e se deixar levar sem se debater
Assim eu vou descer em queda livre

É bom manter a atenção
Ao curtir a paisagem
Às vezes ver o céu, às vezes ver o mar,
Passa um avião
Só há um modo de aprender e é caindo

Vou ter o que contar aonde quer que eu vá,
Todos vão saber
Que eu só sei viver
Em queda livre

Eu posso gritar
Ninguém vai me ouvir não vou incomodar
Nem quero saber
Onde eu vou cair pois, pra mim tanto faz
E vou seguindo

Sempre a primeira vez é mais difícil
Tentar sentir-se em paz, pensar em nada mais
Vendo-se cair
Mas, ao invés de temer eu paro e penso:
Outro jeito não há, já que eu tenho que estar
Solto a descer, o jeito é curtir a queda livre

Eu posso gritar
Ninguém vai me ouvir não vou incomodar
Nem quero saber
Onde eu vou cair pois pra mim tanto faz
E vou seguindo

Eu posso gritar
Ninguém vai me ouvir não vou incomodar
Nem quero saber
Onde eu vou cair pois, pra mim tanto faz
E vou seguindo

Só te peço um favor se você está me ouvindo
Se você se lembrar e não se incomodar,
Meu querido irmão,
Cante essa canção se o meu fim for o chão

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

"Eu desperdicei todas as minhas lágrimas... Eu desperdicei todos esses anos"

"Eu desperdicei todas as minhas lágrimas... Eu desperdicei todos esses anos..." A canção é "Holding back the years" do Simply Red. Não consigo escapar a um sentimento de nostalgia ao ouvi-la.

Mesmo que não seja uma descrição de minha vida: aliás, é ridículo achar que algo que não tenha sido escrito sobre nós, se aplique de forma direta e literal a nós mesmos. A vezes me parece que quando um fragmento da música serve de espelho para quaisquer situação-sentimento que tenhamos vivido, surge essa falsa obrigação de fazer com que o conjunto inteiro da obra se aplique literalmente a nós. Não é isso, e é bom que esclareça logo na primeira postagem sobre o tema.

Mas enfim, querer voltar no passado e tentar resolver o que deixamos inacabado; refazer escolhas que foram "erradas" é um sentimento comum. Como na canção de Kiko Zambianchi (para os mais novos: não, a música não é do Capital Iniciail): "Se um dia eu pudesse ver, meu passado inteiro. E fizesse parar de chover, nos primeiros erros...".

Como disse de início, isso é mera nostalgia... Não há como voltar no passado - embora posamos lançar novos olhares sobre o mesmo. Mais importante ainda: tentar se livrar dos nossos erros, e das circunstâncias adversas que enfrentamos é talvez o maior equívoco de todos.

Somos quem somos, com nossas circunstâncias, equívocos, acertos. Poderíamos ser melhores? Poderíamos ser piores... Há que se aprender a viver com o que se tem. Mais do que segurar a barra de tudo que passamos, é preciso encontrar caminhos para fazer de nossos abismos mais escuros pontes que nos levem aos lugares mais inesperadamente belos - se não forem tão belos assim, ao menos são nossos; e por isso "Non, je ne regrett te rien" .

Mas chega de papo, e aumente o som (e se quiser, leia tudo de novo ouvindo a canção)!

Holding Back The Years

Simply Red


(Querendo voltar no tempo)

(http://letras.mus.br/simply-red/36327/traducao.html)


Pensando no medo que eu tive por tanto tempo
Quando alguém ouve (os ecos do passado)
Escuta o medo que se foi
Estrangulado pelos desejos do pai
Esperando pelo abraço da mãe
Chegue em mim, mais cedo ou mais tarde

Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando

Querendo voltar no tempo
Uma chance para escapar de tudo que eu conheço
Segurando as lágrimas
Pois nada aqui cresceu...
Eu desperdicei todas as minhas lágrimas
Eu desperdicei todos esses anos
E nada tinha a chance de dar certo
E nada jamais pode...

Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando
Bem firme

Tudo certo, agora!

Eu desperdicei todas as minhas lágrimas
Eu desperdicei todos aqueles anos
E nada tinha chance de ser bom
Porque nada poderia...

Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando
Eu continuarei aguentando

Segurando, segurando, segurando
Digo ooh, onde?
É tudo que eu tenho hoje
É tudo que tenho a dizer...

Holding Back The Years

Simply Red


(http://letras.mus.br/simply-red/36327/traducao.html)

 

Holding back the years
Thinking of the fear I've had so long
When somebody hears
Listen to the fear that's gone

Strangled by the wishes of pater
Hoping for the arms of mater
Get to me the sooner or later
I'll keep holding on
I'll keep holding on
Holding back the years
Chance for me escape from all I've known
Holding back the tears
Cause nothing here has grown

I've wasted all my tears
Wasted all those years
Nothing had the chance to be good
Nothing ever could, yeah, ah oh oh oh
I'll keep holding on
I'll keep holding on
I`ll keep holding on
I'll keep holding on
So tight
All right, oh now!
But I've wasted all my tears
Wasted all of those years
And nothing had the chance to be good
'Cause nothing ever could, oh yeah, oh yeah
I'll keep holding on
I'll keep holding on
I'll keep holding on
I'll keep holding on

Holding, holding, holding aaaah la la la la la...
I say ooh, where?
That's all I have today
It's all I have to say...

Projeto: eu não tenho uma biografia. Tenho uma trilha musical de minha vida...

Um projeto relativamente simples que inicio hoje: compartilhar as músicas de minha playlist acompanhadas de comentários pessoais. Que fique claro que não se trata de uma crítica musical especializada; são apenas aproximações bem pessoais de músicas que atualmente estou ouvindo e fazem eco a sentimentos, visões, opiniões, acerca de mim mesmo, da vida, do mundo. Claro que, sendo quem sou, meus pitacos irão sempre com doses de Teologia, Filosofia, etc. Mas também aqui que fique claro: não serão posts sistemáticos sobre música e teologia - quem tiver interesse nisso, recomendo a obra de Carlos Calvani "Teologia e MPB" que aponta todo um caminho teórico para as relações entre Teologia, cultura, arte. Tenho sim alguns escritos bem fragmentários sobre o assunto publicados aqui mesmo no Blog. Se você quiser dar uma olhada também, sinta-se à vontade. Então vamos lá! Que venham as canções!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Teologia e MPB: uma busca, dois olhares

“Isso é a vida real? Isso é só fantasia? Pego num desmoronamento,
sem poder escapar da realidade...”( Bohemian Rhapsody - Queen)

     Essas primeiras frases da canção, talvez resumam minha motivação para seguir fazendo teologia depois de ter abandonado a concepção do deus “positivo”, que já havia sido morto e enterrado pelo filósofo Nietzsche: um deus que esteve e está a serviço do poder e da vontade de reis e sacerdotes; um deus que é a própria vontade de poder, mal-disfarçada nos discursos homofóbicos de um Malafaia, ou avarentos-megalamoníacos de um Macedo. Mas, para além desses ídolos mortos, o Sagrado continua onde sempre esteve; desafiando-nos como mistério indecifrável e ao mesmo tempo inescapável. Rudolf Otto, fala d’Ele como: “o Mistério terrível e fascinante”, porém, prefiro a definição do Teólogo alemão Paul Tillich sobre o Sagrado: “aquilo que nos preocupa de forma última”. Essa forma de falar desse “Deus além de deus” que Tillich propõe tem, entre outras implicações, o saber que o Sagrado está para além de todos os nomes, dos dogmas das igrejas; talvez até mesmo para além das religiões – embora possa estar presente em certo modo em todas elas.  Mas “preocupações últimas” estão mais ligadas à intuição do Incondicional presente na realidade humana. Como diz o teólogo brasileiro, Carlos Calvani, essa percepção do “Incondicional que abrange e modifica toda nossa existência na medida em que atinge o intelecto, a vontade e as emoções”, fundamentando assim a possibilidade, melhor ainda, a necessidade de se fazer teologia a partir da cultura. A teologia, nesse caso, seria um discurso sobre o sagrado. E o teólogo “profissional” uma das vozes dentro desse discurso.

     A partir desse olhar, qualquer um que esteja falando sobre “coisas últimas” está teologando: seja doutor, padre ou policial... “Coisas últimas” não cabem nos livros de teologia; são grandes como o universo.  Sendo assim, é preciso ler junto com os nossos Livros Sagrados, os “livros” da cultura. E bem, não dá pra argumentar e defender isso de forma suficiente aqui, mas para a cultura brasileira, os maiores e mais importantes “livros” estão em forma de música. Para quem é brasileiro, a MPB – termo pra lá de impreciso – é um espaço privilegiado para captarmos a nossa forma particular de falar sobre o incondicionado: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar. Tenho que subir aos céus, sem cordas pra segurar...”. Mesmo sem saber “rezar”, o poeta mostra diante do Divino seu “olhar”, ansioso e desejoso de receber  iluminação que possa o guiar na escuridão da vida...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Quem é o doente?


“Em vez de luz, tem tiroteio no fim do túnel.

Sempre mais do mesmo... Não era isso que você queria ouvir?”
(Mais do mesmo – Legião Urbana)


     A não muito tempo atrás a homossexualidade era considerada doença. Foi em 1990 que a Organização Mundial de Saúde retirou de sua lista de doenças mentais. Em 1999 a Associação Brasileira de Psicologia, ao normatizar a conduta dos profissionais de psicologia, afirmou que "a homossexualidade não constitui doença nem distúrbio e nem perversão e que os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e/ou cura da homossexualidade”.
     Mas um deputado que é líder da assim chamada “bancada evangélica” quer mudanças no texto, para permitir novamente a “cura gay”, o que equivale na prática, a tornar a tratar a homossexualidade como doença.
     Saindo das páginas da política e indo para as policiais, lemos nessa semana mais uma história de violência; dessa vez contra dois rapazes que estavam saindo abraçados de uma festa. Eles foram brutalmente espancados por um grupo de jovens que desceu de um ônibus ao avistá-los abraçados, com facas, socos, chutes e um pedaço de parelelepípedo. Um deles foi morto e o outro foi levado em estado grave no hospital.
     O detalhe da história é que os dois rapazes eram irmãos; gêmeos. O seu crime? Demonstrarem afeto em lugar público.
     Daí novamente a pergunta: quem é o doente? Ou de outro modo: quem está doente? Será que são àqueles que movidos pelo seu desejo entranhado na carne dirigem seu afeto a outra pessoa do mesmo sexo? Ou será que estão doentes àqueles que promovem a violência – verbal, velada, explícita – contra estes?
     Será que não estão doentes políticos, médicos, pastores, que usam de sua profissão não como um espaço para promoção da paz, da justiça e do amor, mas a colocam à serviço da discriminação e da violência?
     Dizem que ninguém quer ter um filho ou filha homossexual. Mas não seria milhões de vezes pior ter um filho ou filha homofóbico?
     Se alguém tiver dúvida, pergunte as mães desses jovens assassinos.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Das confissões de fé

“Ou será que o deus que criou nosso desejo é tão cruel. 
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel. E esses vales são de Deus”  (Chico Buarque)

 Quem atua como professor ou pastor conhece a situação: de vez em quando, diante de um tema para a qual há várias opiniões, vem a pergunta “Mas professor/pastor e o senhor, no que crê?”. A pergunta surge às vezes da angústia de quem teve uma formação baseada na certeza, e por isso tem profunda dificuldade em lidar com dúvidas; noutros casos, é armadilha de quem quer “denunciar” o sujeito por “heresia”.
O fato é que sempre que pude, evitei dar respostas. Seja por que “não sou besta pra tirar onda de herói”, mas, sobretudo por achar que cada qual tem o direito de fazer seus próprios julgamentos e decisões a partir leituras que faz, das experiências que tem.
Mas há um tema em particular sobre a qual sou constantemente “assediado” por uma confissão de fé: homossexualidade.
Novamente, esse pedido de confissão tem intenções variadas. E novamente fico morrendo de má-vontade em fazê-la... Por vários motivos, novamente. Nesse caso, o maior deles é por profundo respeito a quem vive na pele o preconceito e a luta por viver a sua sexualidade que para si, é normal, mas para aqueles que têm traves nos olhos, é maldição. Que direito tenho eu, pois, em deitar falação sobre algo que não é a minha experiência? Muito melhor ouvir e ler quem vive sua condição de homoafetividade com respeito e atenção. Certamente aprenderíamos mais e melhor.
Porém, como o silêncio é cumplicidade com a “maioria”, e nesse caso, a “maioria” é lesbofóbica, homofóbica, cumpre o dever de quem pensa contra a maioria de explicitar sua posição. E já que me perguntaram, eu digo: lésbicas, homossexuais são amados por Deus, como eu, como qualquer outro ser humano. Mais ainda (desculpem-me pela obviedade): são meus semelhantes, a quem devo amar como a mim mesmo. Sem “mas...”. Sem “desde que...”.
Digo mais: cheguei a essas conclusões nas muitas leituras que fiz do texto bíblico. Sem querer entrar num cansativo jogo de “versículo contra versículo” daqueles que brincam de teologia dogmática como quem joga batalha naval, minha “fé” se baseia no enunciado, que para mim é central nas Escrituras, que é a norma do amor. Eu leio todos os textos das Escrituras a partir dessa norma, e qualquer texto que entrar em conflito com a mesma, paciência, ele terá que ficar em segundo lugar. É arbitrária a leitura que eu faço? Pode ser. Embora cá eu saiba que a turminha da “leitura literal” faz exatamente o mesmo – quando um texto não encaixa na suas convicções, tratam de dizer que é metáfora, contextual ou coisa que o valha. Eu faço o mesmo. Mas tenho a honestidade de assumir que faço.
Mas voltando a minha “confissão” central, creio plenamente no amor de Deus, que aceita e inclui todas as formas de amor. E que de igual modo abomina tudo o que seja anti-amor: todas as formas de relacionamento injusto sejam hétero ou homo estão certamente abrangidas aqui.
E ponto final. Peço desculpas aos meus três leitores (plagiando Tutty Vasques), mas não tenho nada mais profundo ou eloqüente a dizer.
É isso que penso. É nisso que creio.