sexta-feira, 25 de março de 2011

“Diante da dor alheia, respeito!”



“E, levantando de longe os seus olhos, não o conheceram; e levantaram a sua voz e choraram, e rasgaram cada um o seu manto, e sobre as suas cabeças lançaram pó ao ar.  E assentaram-se  com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande. (Jó 2:12-13)

          Certamente cada um de nós derramou ao menos uma lágrima diante das imagens que temos visto da catástrofe que se abateu sobre o Japão. Mas não só lá: aqui mesmo no Brasil, diante das chuvas que tem caído forte em diversas partes do país, cenas de dor, morte, desespero chegam até nós numa repetição que chega a nos anestesiar tamanha a velocidade. Diante de perdas tão terríveis, o mínimo que se exige de nós é um profundo respeito pela dor daqueles que perderam tudo, e mais do que isso: perderem todos. Para minha vergonha, alguns “colegas” tem sido aqueles que menor sensibilidade tem demonstrado, ou para dizer de forma clara, têm sido insensíveis, cruéis e desonestos, tanto do ponto de vista teológico como moral, pois têm se aproveitado dessas tragédias para reforçarem sua visão distorcida da realidade, ou simplesmente para aumentar a arrecadação em seus cultos.
     É claro que todo evento adverso, levanta para nós que cremos em Deus uma série de perguntas, a mais comum de todas é “por que Deus permitiu que isso acontecesse?”. É uma pergunta honesta que pode nos levar a uma série de reflexões. Pode-se argumentar na direção de que Deus permite que certas coisas sucedam para provar a nossa fé; o problema é que os eventos tais como temos assistido causam uma quantidade de dor e morte tão devastadora que colocá-las como “testes” para a nossa fé tornaria Deus numa espécie de jogador cruel com nossos destinos. Outra reflexão nos leva na direção da compreensão que esses fenômenos têm haver como o modo como nosso mundo existe; nenhum deles é um evento “sobrenatural”; além disso, poderia se acrescentar que muitos destes eventos assumem as proporções terríveis que temos assistido por conta da interferência humana: por que temos ocupado de forma inadequada os espaços, como diz a canção, criando “palácios e barracos”; temos devastado a natureza e com isso precipitado uma série de eventos que depois nos apavoram; criamos formas de energia altamente destrutivas, como no caso da energia nuclear. Mas sei que isso obviamente não é uma resposta definitiva a pergunta. Creio mesmo que não haja tal resposta.
     Talvez, a única resposta seja aquela que encontramos no texto de Jó que lemos acima: uma profunda comoção diante da dor alheia, e um silêncio mais do que respeitoso: solidário. Para aqueles que leram o resto do livro, é justamente quando os amigos de Jó resolvem abrir a boca é que começam a dizer as mais rematadas besteiras, como dizer que Jó estava sofrendo por que Deus estava castigando os seus pecados. Pelo que tenho ouvido, parece que muitos pastores de nossos dias não fizeram isto, pois continuam a dizer as mesmas asneiras que os amigos de Jó.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"Façamos, vamos amar..."

"Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho." (Cantares 1 : 2)

De poesia também se vive, já diria o poeta... E de beijos e abraços? Igualmente. Ou melhor, muito mais ainda! A verdade é que se o caminho para a vida plena é feita de lutas pela paz e justiça, é com carinho e afeto que se enfeita a estrada, e faz que o horizonte – que às vezes nos parece duro e distante – se torne um jardim.
Temos diversos textos nas escrituras que falam da beleza do amor como sentimento e também como toque, como carícia, olhos, nos olhos, contato de pele. Dentre todos, o mais belo e o mais claro em termos de narrativa é certamente o “Cântico dos Cânticos”.
Sem rodeios ou falso pudores, os personagens do texto nos lembram aquilo que nunca deveríamos esquecer: dar e receber carinho faz bem; é preciso conhecer e apreciar o corpo do(a) amado(a); um beijo, uma canção ao pé do ouvido - pode ser declamada se não souber cantarolar; um abraço; uma flor... tudo isso conta muito, e não é algo que pode ser negligenciado na vida a dois. Enfim, nos traz a mente o quanto é importante não esconder o amor dentro de si, sem nunca demonstrá-lo. Como a luz que não se esconde embaixo da mesa, o amor - que inclui sim a dimensão da sexualidade -  precisa estar em lugar de destaque para que possa iluminar a seu modo, a vida de um casal.
Além disso, para além do texto, temos que lembrar que são os gestos de afeto que ajudam a manter a intimidade de um casal. Num mundo tão áspero e violento, fazer um “dengo” suaviza o dia, e dá fôlego pra se viver.
Mesmo que nossa formação cultural e religiosa não nos ajude muito nesse sentido, como em tantas outras coisas na vida, é preciso ultrapassar nossos limites quando a causa é nobre... Como diria a canção, interpretada na inconfundível voz de Elza Soares num dueto com Chico Buarque: “façamos, vamos amar”.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A dimensão do prazer

     "As suas pernas como colunas de mármore colocadas sobre bases de ouro puro; 
o seu aspecto como o Líbano, excelente como os cedros. A sua boca é muitíssimo suave, sim, ele é
totalmente desejável. Como cerva amorosa, e gazela graciosa, os seus seios te saciem todo o tempo;
e pelo seu amor sejas atraído perpetuamente.  (Provérbios 5 : 19 e Cântico dos Cânticos 5:15)

     Tabu, algo proibido, sobre o qual o quanto menos se falar, melhor. É desse modo que a questão da sexualidade é em geral tratada no ambiente cristão. Mas onde é que começa o problema? Quando foi e por que a questão da sexualidade passou a ser reprimida na história do pensamento cristão? Como uma brevíssima (e incompleta) leitura desse tema, me arrisco a dizer que nas narrativas do Antigo Testamento, como na discussão posterior, há três dimensões sobre a discussão do corpo e da sexualidade, com seus limites e contradições.
     A primeira discute a questão de como a sexualidade poderia ser empecilho a união cultual com Deus, a partir da noção mítica do puro e do impuro; era assim que o homem era considerado impuro, e assim impedido por tempos determinados de participar do culto, em caso de ejaculação e a mulher em caso de menstruação, hemorragia e nascimento do filho (Lev.. 15:16-21). O valor dessa leitura é difícil de apontar. Há quem resgate o tema apontando que se tratava de uma forma rudimentar de “medicina preventiva”, que a partir do senso-comum procurava impor certas medidas consideradas sanitárias. Os limites, porém são claros: lidos em uma cega textualidade esses textos apontam para a visão onde o corpo em geral, e a sexualidade em específico, é “suja”, ou melhor, impura. Tal crença porém é incompatível tanto com a idéia de que a criação é “boa” quanto com a nossa crença de que Deus se Encarnou – pois se o corpo é intrinsecamente mal, seria preciso dizer que Cristo não tinha um verdadeiro corpo, mas apenas uma “aparência” de corpo.
     A segunda dimensão tem haver com a sexualidade vista a partir de uma ótica moral e social; é nessa linha que devem ser lidas as prescrições específicas contra o adultério (Dt. 22:22), o incesto (Lev. 18:6-18), a prostituição (Dt. 23:28), entre outros atos considerados como contrários a Lei Divina, e ao mesmo tempo como desorganizadores da vida humana em família/sociedade; a busca desses textos então é de promover a “vida com qualidade” e prevenir os abusos que uma sexualidade desregrada poderia (e pode) trazer. Isto é, esses textos nos servem ainda hoje de importante lembrete de que o prazer sexual não pode ser fruído as expensas do outro; e que o respeito tanto aos indivíduos como a sociedade devem ser considerados sempre, em todo e qualquer ato humano. O perigo dessas leituras é a possibilidade do “engessamento” de determinados preceitos morais e sociais que não equivalem mais ao que temos como os mais altos valores humanos hoje – um exemplo claro é o lugar da mulher em nossa cultura; ainda que lutando contra muitos preconceitos, as mulheres têm hoje assegurados direitos que antes eram simplesmente ignorados.
     A outra dimensão, muitas vezes “esquecida” e reprimida, é a que vê no corpo e na sexualidade uma possibilidade para o prazer e o deleite humano. É assim que pensa o escritor do Eclesiastes, quando reconhece que em nossa fugaz existência, o prazer numa relação a dois é uma forma de se “recrear” diante de uma vida marcada pela aridez (Ec. 9:9).   Mas muito além disso, o escritor – ou escritora? – do Cântico dos Cânticos nos fala do amor entre duas pessoas – e que inclui naturalmente a esfera do corpo e da sexualidade – como sendo uma demonstração do belo no ser humano. Amado e amada não se envergonham de falar da beleza do corpo um do outro, e de declarar o amor e desejo que sentem um pelo outro; sem o subterfúgio de dizer que se trata de um amor entre “almas” – ainda que esse amor tenha muito de profundo, de interioridade, ele se derrama também no exterior e no corpo, que eles nomeiam e admiram com voracidade e prazer. Infelizmente a igreja e os teólogos sentem vergonha do corpo e da sexualidade humana. Adoecem a si mesmos, e deixam de prestar uma grande contribuição a própria dinâmica de nosso tempo. Ora, num tempo onde a sexualidade é vista quase sempre de forma superficial, tal leitura permite recolocar a questão de modo muito mais profundo e integrado, por que, de outro modo, para aqueles que ainda sentem o peso do jugo de uma educação sexual repressiva e suas conseqüentes deformações, perceber que o texto bíblico vê no corpo humano e sua indissociável sexualidade algo “bom”, pode significar uma libertação tão necessária quanto urgente.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Diálogo ou morte...

“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus”  (José Saramago) 

    Chico Buarque em sua canção “Paratodos” como que retratando a diversidade do povo brasileiro, vai dizer: “o meu pai era paulista, meu avô pernambucano, ou meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano...”.  De um modo diferente, incluindo a completa falta de poesia, eu poderia dizer que meu vizinho do 303 é budista; do 402 é adventista; do 501 candomblé; do 702 católico...
     Um fato concreto desse nosso tempo de múltiplas migrações, ajuntamentos urbanos, a liberdade de culto, acesso a informação, tempos e lugares de trânsito: vivemos um tempo de diversidade, em várias dimensões da vida. Juntando tudo isso, estamos cada vez mais próximos do nosso “diferente”.
     A pergunta é o que fazer em face disso. Uma opção é concluir, que o outro é o meu “inferno” – nele se concretiza o contrário das minhas opiniões, vontades e crenças. Ora, me parece que ninguém quer morar com o inferno a sua porta... necessário então é eliminar o outro-inferno, seja de forma metafórica, ignorando-o, desprezando-o, tratando-o como digno de pena, um coitado, alguém que não é da mesma qualidade da nossa; um passo mais, e alguns violentos e extremistas querem eliminar o outro de forma concreta: é assim que há a formação de um “protesto virtual” de um movimento chamado o “São Paulo para os paulistas”, que pretende “livrar” esse Estado da influência principalmente de nordestinos e negros; também hoje assistimos o ressurgimento da Klu-klux-klan nos EUA, e unidos a eles diversos novos grupos pregando a “supremacia branca”. 
     Como se pode ver, “eliminar o outro” é uma opção recorrente; talvez a mais “fácil”. O detalhe para o qual não atentamos, é que ao agir assim ensejamos uma reação igual e contrária: eu também me torno o “inferno” do outro; também ele não vai querer me destruir? Sem precisar aumentar em detalhes, a opção de tratar o outro como o “inferno” arrasta a todos para vivermos nele.
     A outra opção que temos é um profundo exercício de aceitação e compreensão uns dos outros, em suas múltiplas dimensões: política, racial, gênero, opção sexual, religiosa. Como o assunto aqui é a última, diria que o esforço para a vivência ecumênica deveria ser a mais simples de todas, visto a essência da religião (em termos de re-ligare mesmo) é o amor. É claro que os códigos e livros sagrados de todas as religiões tem inúmeros preceitos, alguns deles bem difíceis e duros. Mas tomada em sua forma mais original, é o amor (em suas várias formas) que fundamenta todas as experiências religiosas.
     Falando basicamente das grandes religiões monoteístas, que por seu tamanho e poder tem uma possibilidade de influência ímpar, e que partilham textos e histórias em comum, bastaria que todos os que dizem professar essas religiões se disponham a tão somente a “amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”.    Feito isso, nada mais a dizer. Nada mais de longas palestras sobre justiça social, respeito à mulher, diversidade sexual, ecumenismo, diálogo inter-religioso, luta contra a intolerância. Nada. Apenas amar.
     Mas... enquanto esse dia não chega, que estejamos conscientes da necessidade e exigência de construirmos espaços de inclusão, para que possamos aprender a viver em face do outro. Não como meu adversário, mas como irmãos e irmãs.
     É isso, ou o inferno...

Vamos combinar assim...

Como gosta de dizer o Tutty Vasquez (o que no caso dele é brincadeira, mas no meu se aproxima bem da exatidão rss), em respeito aos três ou quatro que frequentam esse blog, vou combinar o seguinte: vocês vem aqui uma vez por semana, e eu faço o mesmo...
Quer dizer, no meu caso eu venho pra escrever...  Se bem que... você também é convidado a escrever... pode ser nos comentários, mas quem sabe também nos posts?
Vamos conversando e pensando juntos. Afinal, esse é o espírito da coisa.
Abraço pra que é de abraço, beijo pra quem é de beijo. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Que venha 2011...

"Não me iludo, tudo permanecerá do jeito que tem sido... Transcorrendo, transformando... Tempo e espaço navegando todos os sentidos..."  (http://www.youtube.com/watch?v=C-BADckQhP4)

Aos meus amigos e amigas,

Meu desejo no final de mais essa década é que eu e vocês continuemos a gostar da vida, recebendo-a em sua inteireza: saboreando cada alegria, e não desanimando diante das tristezas e contradições; que a gente possa seguir nessa teia de relações, que por vezes nos aborrecem e sobrecarregam, mas que é o único modo de encontrar um rumo nessa complexidade dura e bela que é o viver. 
Se o ano novo vai ser bom ou novo, eu não sei. Qual a saída para os problemas, muito menos. A única coisa que posso dizer com minha reserva de esperança é: "Vamos lá fazer o que será..." (http://www.youtube.com/watch?v=vJyK8R-u2ek)
Abraço para quem é de abraço, beijo pra quem é de beijo. 
Feliz 2011