Ah o "progresso"! Como somos orgulhosos dos aparatos tecnológicos que criamos, como essa caixinha que permite que a gente se comunique a distância, e permita tantas possibilidades. Sim, claro que não sou hipócrita o suficiente para dizer que não curto (e compartilho) dos benefícios de tantos avanços que a ciência e seus produtos têm oferecido. Aliás, nem é necessariamente esse o problema que discuto aqui: o que acho muito discutível é a Ideologia do progresso, a falsa narrativa de que avanços tecnológicos signifiquem uma "melhoria" da vida como um todo.
Como diz uma canção (Dreaming) do System of a Down, somos a geração da privatização de bens coletivos essenciais, como a água - expressa no absurdo que são garrafas pequenas de água que custam um valor que impede que a população pobre tenha acesso a esse bem, e, portanto, esteja condenada a morrer de sede num futuro próximo (e já presente...)
A pergunta a ser feita não é
sobre o "progresso" apenas, mas para quê, e para quem, como também já
questionava nosso poeta-profeta Gilberto Gil: "Queremos saber, o que vão
fazer com as novas invenções”. Pensar coletivamente - e cada vez mais nos damos
conta de que como humanos, não habitamos sozinhos a "casa comum", e
de que não é possível utilizar-se dos recursos naturais de qualquer forma e a
qualquer preço - pois isso redundará em ruína coletiva, começando sempre é
claro pelos empobrecidos e fragilizados pelos sistemas de acumulação e opressão
- é a única forma de garantir a continuidade da vida no planeta, conforme a
conhecemos e na qual nossa existência é possível.
Para isso, me parece, o maior
desafio ainda é exercitar o "nós". Não há nada mais problematizador
do que o "nós". Mas o "nós" de verdade, que inclua todas as
pessoas, com respeito e dignidade, e que por isso mesmo, comece com a denúncia
e o enfrentamento de todos os privilégios acumulados por "alguns". E
como a estrutura toda perversa e desigual que temos é baseado no olhar, e nas
normatividades perversas dos "alguns": homens, brancos, europeus,
cristãos, héteros etc. E para encontrar pistas para sairmos dessa ratoeira em
que fomos colocados, só buscando e aprendendo com as outras e outros - as
"vítimas" da história, as alternativas, as transgressões, os opostos.
A verdade é que desde que "nos
deram espelhos e vimos um mundo doente" neste território de genocídios
incontáveis a que chamamos Brasil, ficamos reféns dessa cultura egoísta e
egocêntrica, do individualismo que no fim das contas irá destruir tudo,
inclusive a nós mesmos.