quarta-feira, 3 de junho de 2026

“Em queda livre”

Ah o "progresso"! Como somos orgulhosos dos aparatos tecnológicos que criamos, como essa caixinha que permite que a gente se comunique a distância, e permita tantas possibilidades. Sim, claro que não sou hipócrita o suficiente para dizer que não curto (e compartilho) dos benefícios de tantos avanços que a ciência e seus produtos têm oferecido. Aliás, nem é necessariamente esse o problema que discuto aqui: o que acho muito discutível é a Ideologia do progresso, a falsa narrativa de que avanços tecnológicos signifiquem uma "melhoria" da vida como um todo.

Como diz uma canção (Dreaming) do System of a Down, somos a geração da privatização de bens coletivos essenciais, como a água - expressa no absurdo que são garrafas pequenas de água que custam um valor que impede que a população pobre tenha acesso a esse bem, e, portanto, esteja condenada a morrer de sede num futuro próximo (e já presente...)

A pergunta a ser feita não é sobre o "progresso" apenas, mas para quê, e para quem, como também já questionava nosso poeta-profeta Gilberto Gil: "Queremos saber, o que vão fazer com as novas invenções”. Pensar coletivamente - e cada vez mais nos damos conta de que como humanos, não habitamos sozinhos a "casa comum", e de que não é possível utilizar-se dos recursos naturais de qualquer forma e a qualquer preço - pois isso redundará em ruína coletiva, começando sempre é claro pelos empobrecidos e fragilizados pelos sistemas de acumulação e opressão - é a única forma de garantir a continuidade da vida no planeta, conforme a conhecemos e na qual nossa existência é possível.

 Para isso, me parece, o maior desafio ainda é exercitar o "nós". Não há nada mais problematizador do que o "nós". Mas o "nós" de verdade, que inclua todas as pessoas, com respeito e dignidade, e que por isso mesmo, comece com a denúncia e o enfrentamento de todos os privilégios acumulados por "alguns". E como a estrutura toda perversa e desigual que temos é baseado no olhar, e nas normatividades perversas dos "alguns": homens, brancos, europeus, cristãos, héteros etc. E para encontrar pistas para sairmos dessa ratoeira em que fomos colocados, só buscando e aprendendo com as outras e outros - as "vítimas" da história, as alternativas, as transgressões, os opostos.  A verdade é que desde que "nos deram espelhos e vimos um mundo doente" neste território de genocídios incontáveis a que chamamos Brasil, ficamos reféns dessa cultura egoísta e egocêntrica, do individualismo que no fim das contas irá destruir tudo, inclusive a nós mesmos.

 No ponto em que estamos, nem sequer sabemos se há tempo de propor saídas ou soluções que consigam frear esse caminho de destruição. Mas ainda aqui, cabe ouvir outras vozes, que apontam utilizações melhores e mais generosas e criativas para este tempo que nos resta: "Por que, com essa técnica, esse conhecimento, essa ciência, esse aparato todo sem destino que estamos manipulando, não dirigimos ele, por exemplo, para construir paraquedas coloridos? O que seriam esses paraquedas? Essa experiência de estarmos aqui, conversando, é uma experiência de soltar sem medo de cair, experimentando esse salto caindo" (Ailton Krenak, em entrevista em divulgando seu livro "Ideias para adiar o fim do mundo").                          

Joel Zeferino. 
                                          

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